sexta-feira, 8 de junho de 2007

Uma Carta de Lucila para a Alcatéia
Selva Recuperada, junho de 2011.....
Queridas amigas, aceitem, eu lhes peço, uma pitada de minha utopia ou de poesia...
Todos nós estamos em busca da felicidade. Será ela possível ao ser humano? Ou ela é sonho, ideal que nos indica trilhas no labirinto que chamamos de Vida? Depois que aceitei que felicidade não é um ponto de chegada, mas uma decisão que tomo a cada passo que dou no caminho, tudo ficou mais fácil. Sigo pela estrada afora cantando...Encontrando, a todo instante, lobos maus que ora apenas me espreitam, ora me assustam e agora, até conversam comigo em tons amistosos e aceitam até acariciar as margaridas, minhas companheiras, assim como os colibris e coelhinhos das minhas gravuras infantis e ternas. Posso eventualmente, trocar o capuz vermelho por um lindo chapéu de abas azuis e floridas. E até já desarrumo minhas tranças em cabelos revoltos. E os pés? Descalços para mergulhá-los em águas cristalinas.No bolso, vai comigo a bonequinha, que bem nutrida, vai me indicando as pistas, pois ela é bem “Sabida”! Sapatinhos vermelhos não me seduzem mais; hoje, caminho com desenvoltura nas sapatilhas que eu mesma costurei com lindos retalhos, nas noites de muitas alegrias.
Caríssimas, vocês já entraram nesse espaço mágico da felicidade, certamente. Juntas, estamos refazendo nossos contos de fadas e atualizando nossas indumentárias para prosseguirmos a trajetória. Quase nos perdemos na floresta..A floresta quase acabou.Havia muita fumaça e muitas árvores destruídas...Nossos animaizinhos, quase todos fugiram e nossas nascentes secaram em demasia. Felizmente, deu tempo de retomarmos nossa caminhada. Foi difícil quebrar as muralhas e destruir os tanques de venenos. Mais complicada ainda a operação: MORTOS NÃO POSSUEM CONTAS BANCÁRIAS. Parece que está vencida também essa etapa.
Queridas, vocês se lembram dos castelinhos que eram vendidos a granel para todas as menininhas do mundo? Cárceres disfarçados. E o belo príncipe no corcel branco?!! Como foi difícil explicar para as prisioneiras e para as adormecidas que eles eram enfeitiçados? Hoje, felizmente, são poucas as que decidiram brincar de faz de conta. O bom é que quando elas entram em “castelinhos encantados” elas sabem que estão entrando “de mentirinha”.
Nós, que escolhemos caminhar na liberdade de construir as trilhas para a felicidade, sabemos que podemos seguir tranqüilas, pois a Vida reverenciada facilita a caminhada.
Quando deixamos de aceitar as enlatadas e falsas promessas de uma vida sem mistérios e explicada nos mínimos detalhes por teorias de dominação em massa e decidimos fazer parte da mágica dança da Vida, tudo se harmonizou. Então tudo estava do avesso? Parece que sim, pois foi só quando decidimos ver os arremates da tapeçaria é que entendemos a realidade. Como foi difícil no começo, não foi queridas? Também pudera, de ‘donos do mundo’ fomos todos rebaixados a partículas!!! Pensando bem foi uma comédia!!! Houve muito choro, pois quase todos pensávamos estar perdendo preciosidades. Tantos celulares, tantos computadores, tantos caixas-eletrônicos...Tudo absolutamente obsoleto!!!
Hoje, fazem parte de museus e de montes de entulhos nas praças. Parecem realizações das proféticas bienais de artes do início do século. E nós caminhamos pelos atalhos cantando a liberdade de ser apenas um fiozinho da teia. Não é fácil a liberdade, mas ela é condição de vida. Aceitar ser prisioneiro para enfim morrer na ilusão?! É bem melhor já viver na desilusão e na liberdade de ao menos caminhar ao lado dos animaizinhos da floresta sobrevivente.Cantando e dançando com o pulsar eterno da Vida-Morte-Vida.
Sem cercas e sem grades, as cidades se emendando nos campos e nos vales... parece que utopias se atualizam. Muitos pensadores e sonhadores do passado ousaram intuir nossa realidade. Valeu a pena. A pena que usaram para descrever a felicidade não foi vã. Hoje, nem mais se escreve nada sobre o futuro. O homem parou de projetar destruições. Hoje, os escritores narram os acontecimentos que resultaram nossa liberdade. Precisam registrar para que sejam lidos diariamente às crianças nas praças e nos campos, bem à moda homérica. Eram, naquele tempo remoto, os cegos anciãos, por serem considerados sagrados pela sociedade, os que ensinavam aos jovens as tradições e os conhecimentos. E eles eram ouvidos com muita atenção, pois seus relatos eram orais e eles o aprenderam dos antepassados. Eles o decoravam, isto é, guardavam os conhecimentos no coração. Hoje, além de tudo que precisamos contar às crianças, é urgente lhes ensinar também onde fica o coração dos homens e de todas as coisas. Eles aprenderão, não é, queridas amigas? Cordiais abraços,
Lucila

Lucila Papacosta Conte, coordena em São José do Rio Preto-S.P. grupos de mulheres que estudam Mulheres que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Éstes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Querida Lucila,

será que chegaremos até lá? Será que um dia conseguiremos nos despir de máscaras, medos, preceitos e pré-conceitos?
As utopias, estas sim deveriam ser encarada não como um ideal distante mas como um motor para uma vida melhor.

bjs,

carol beolchi